Historia das danças

A Dança e Sua Origem

Um pouco sobre a história da dança de salão no Brasil

Jussara V. Gomes

A dança é uma das manifestações artísticas mais antigas da humanidade. Teve origem nos gestos e movimentos naturais do corpo humano para expressar emoções e sentimentos, a partir da necessidade de comunicação entre os homens.

Inicialmente, a dança integrava rituais dedicados aos deuses, objetivando pedir auxílio para a realização de boas caçadas e pescarias, para que as colheitas fossem abundantes, para que fizesse sol ou chovesse. A dança fazia parte, também, de manifestações de júbilo e congraçamento pela vitória sobre inimigos e por outros eventos felizes.

Com o passar do tempo, cada povo desenvolveu suas próprias formas e estilos de dançar, caracterizando suas diferentes culturas, da mesma forma que a música, o vestuário, a alimentação, etc. marcam o jeito de ser próprio de cada sociedade.        

Dependendo de seus objetivos, surgiram diversos tipos de dança: a guerreira, a teatral, a ritual ou religiosa, a popular ou folclórica (geralmente dançada em festas populares, em grupos e ao ar livre), o balé clássico e a dança moderna (artísticos e mais voltados para espetáculos), a dança social ou de salão, a dança esportiva, o balé no gelo ou patinação artística e outros tipos. A dança esportiva e a patinação artística são modalidades de caráter competitivo e estão em processo de inclusão entre os esportes olímpicos.

A dança social ou dança de salão é praticada por casais, em reuniões sociais e surgiu na Europa, na época do Renascimento. Pelo menos desde os séculos XV e XVI, tornou-se uma forma de lazer muito apreciada, tanto nos salões dos palácios da nobreza, como entre o povo em geral. É chamada de social por ser praticada por pessoas comuns, em festas de confraternização, propiciando o estreitamento de relações sociais de amizade, de romance, de parentesco e outras. De salão, porque requer salas amplas para os dançarinos fazerem livremente suas evoluções e porque foi através da sua prática nos salões das cortes reais européias que este tipo de dança foi valorizado e levado para as colônias da América, Ásia e África, sendo divulgado pelo mundo todo e transformando-se num divertimento muito popular entre diversos povos.

A dança de salão chegou ao Brasil trazida pelos colonizadores portugueses e mais tarde, pelos imigrantes de outros países da Europa que para cá vieram. Num país como o Brasil, com tão fortes e diferentes influências culturais, não tardaram a se mesclar contribuições dos povos indígenas e africanos, num processo de inovação e modificação de algumas das danças européias importadas, bem como de surgimento de novas danças, bem brasileiras.

O Rio de Janeiro, na medida em que foi capital do Brasil desde o período colonial até 1960, sempre foi o polo irradiador de cultura, modismos e inovações em geral para o resto do país.

Em 1808, a corte portuguesa transferiu-se para cá e trouxe consigo muitos dos gostos e hábitos sociais europeus daquela época, inclusive as danças que estavam na moda e o costume dos bailes freqüentes, de forte influência francesa. Durante o século XIX, qualquer evento era motivo para um baile: aniversários, noivados, casamentos, formaturas, datas cívicas, visitas de parentes e amigos, etc.. Professores de dança europeus, especialmente os franceses, eram contratados para manter os membros da nobreza brasileira em dia com as danças que estavam na moda nas mais importantes capitais européias.

Após a proclamação da república, o gosto pelos bailes continuou a crescer entre os cariocas, tornando-se cada vez mais populares e freqüentes, a ponto do consagrado poeta Olavo Bilac comentar, num artigo de 1906, para a revista Kosmos: “...no Rio de Janeiro, a dança é mais do que um costume e um divertimento; é uma paixão, uma mania, uma febre. Nós somos um povo que vive dançando”.

Na passagem do século XIX para o XX, as danças da moda eram a valsa, a polca, a contradança, a mazurca, o xote e a quadrilha. Sim, a quadrilha que, naquela época, era uma dança refinada, apropriada aos salões aristocráticos. O próprio Imperador D. Pedro II foi um grande apreciador das quadrilhas, dançando todas que eram tocadas nos bailes a que comparecia. Só mais tarde, muito modificada, esta dança virou a quadrilha caipira das festas juninas, como a conhecemos hoje.

Até a década de 1960, os bailes eram um dos eventos sociais mais importantes e populares para os cariocas de todas as idades e camadas sociais. Nos bailes, as pessoas se divertiam, faziam negócios e novos amigos, muitos namoros começavam, enquanto outros casais faziam as pazes, depois de brigas e desentendimentos. Muitas vezes, até problemas de ordem política e econômica, que afetavam o país, eram discutidos em bailes diplomáticos e outros, aos quais compareciam dirigentes da nação.

O aparecimento e o período áureo das discotecas – em que os casais passaram a dançar sem se tocar, de uma forma mais livre e solta e até sem necessidade de parceiro(a) – levaram a dança de salão a cair num semi-esquecimento, pelo menos nas grandes cidades, por um período de vinte anos, mais ou menos. Foi a vez das luzes e ritmos das discotecas assumirem um papel de destaque na vida social, substituindo os bailes tradicionais, onde os casais dançavam juntinhos.

A dança de salão não desapareceu, mas passou a ser vista como uma manifestação fora de moda, praticada por pessoas mais velhas e conservadoras ou por membros de camadas sociais menos favorecidas, no interior do país e nas periferias das grandes metrópoles.

Desde meados dos anos ’80, porém, a dança de pares enlaçados vem retornando com toda a força, retomando o lugar de destaque que sempre ocupou na vida social urbana. Multiplicam-se seus adeptos e os lugares para dançar a dois, num movimento forte e abrangente, que parece ter vindo para ficar.

Os professores de dança de hoje se organizam em academias e escolas, onde também são realizados bailes para seus alunos poderem praticar. Essas academias estão formando um número cada vez maior de dançarinos. Há concursos e espetáculos, que incentivam os dançarinos a se aprimorarem e que estimulam a profissionalização de muitos deles. Desta maneira, estão surgindo cada vez mais profissionais da dança de salão, vários deles formando companhias de dança para mostrar sua beleza e divulgá-la através de espetáculos cada vez mais sofisticados tecnicamente.

O sucesso internacional da lambada, nos anos ’80, facilitou o caminho de redescoberta da dança a dois pelos mais jovens, nascidos e criados ao som dos ritmos de discoteca. E voltando a cair no gosto do público jovem, a dança de salão vem passando pelo processo de renovação e expansão a que todos nós estamos testemunhando, no momento.

Os ritmos dançados nos bailes cariocas, atualmente, são: o samba e o chorinho, bem cariocas; o bolero (e outros ritmos relativamente lentos, que podem ser dançados como o bolero); ritmos mais rápidos, como o rock e outros, que são dançados de uma forma genericamente chamada de “soltinho”; a salsa e o merengue; assim como, em bailes especiais, para seus apreciadores, a lambada e o zouk, bem como o tango, a milonga e a valsa (dançada à maneira dos argentinos).

A dança de salão é uma das mais tradicionais e fortes características culturais brasileiras. É uma expressão alegre e espontânea de seu povo, com seus ritmos e formas de dançar próprios, que despertam a atenção e a admiração dos turistas estrangeiros. Seu potencial cultural, educativo e turístico é enorme e, mais uma vez demonstrando sua vocação de metrópole formadora de opinião para o resto do país, o atual jeito carioca de dançar vem sendo rapidamente divulgado entre os outros estados brasileiros, o que não quer dizer que os outros estados não tenham, também, seus ritmos preferidos e suas formas próprias de dançar. A riqueza e a diversidade da dança de salão em território brasileiro é grande e é isto que a torna tão atraente para nós mesmos e para os estrangeiros: o brasileiro é um dançarino nato, extremamente criativo e musical.

            No entanto, a história e as muitas facetas e características deste lazer popular ainda são pouco estudadas e conhecidas, entre nós. Assim sendo, o intuito deste artigo é contribuir para o conhecimento e a divulgação deste patrimônio cultural do povo brasileiro, especialmente entre aqueles mais interessados no assunto, isto é, os próprios dançarinos e profissionais da dança de salão.

 

Vamos dançar um bolero?

Jussara V. Gomes

Os ritmos mais dançados nos bailes cariocas da atualidade são o bolero, o samba e o “soltinho” (que não é um ritmo, mas uma forma de se dançar alguns ritmos). Há também os bailes especiais, para quem gosta da salsa e do merengue, que andam na moda, para os adeptos dos ritmos de forró, para os apreciadores de lambada e zouk, assim como para os que se dedicam ao tango, milonga e valsa dançada à maneira dos argentinos. É claro que estes ritmos também são dançados nos outros bailes, porém com pouca freqüência, na medida em que nem todos sabem dançá-los com a mesma desenvoltura dos ritmos citados em primeiro lugar e que são os mais populares entre nós. Há muito o que dizer a respeito de cada um deles.

No que diz respeito ao bolero, é uma dança de origem espanhola. Consta que seu nome deriva da palavra espanhola volero (de volar = voar) ou das bolinhas que eram usadas presas nos vestidos das dançarinas ciganas, que pareciam voar enquanto elas dançavam. Já no século X existia uma dança chamada bolero de algodre, de origem árabe, que era dançado em grupos de três pessoas – um rapaz e duas moças. Entretanto, parece não ter sido ele que deu origem ao bolero que nos interessa aqui. Este surgiu no final do século XVIII. Há autores que apontam o bailarino Zerezo como seu criador, em 1780. Veio do fandango, uma outra dança espanhola de origem árabe, muito popular, desde o século XVII e que também andou fazendo sucesso em terras brasileiras, nos séculos XVIII e XIX. O fandango era uma dança mais vigorosa, menos suave que o bolero e ainda é dançado, em versão bem modificada, em estados do sul do Brasil. O bolero, a princípio, era executado com acompanhamento de castanholas, violão e pandeiro, tal qual o fandango, enquanto o casal dançava sem se tocar, com sensuais movimentos de aproximação e afastamento.

Trazido pelos espanhóis para suas colônias na América, ele foi se modificando pelas influências locais e recebendo contribuições, em especial, de ritmos vindos da África. Sempre foi mantido, no entanto, seu caráter de dança de galanteio, suave, terna e romântica. Desenvolveu-se, principalmente, em Cuba e outros países da América Central.

Curiosamente, só no Brasil – em particular, no Rio de Janeiro – ele é dançado da forma que o conhecemos nos dias de hoje, com figurações muito diversificadas. Na maioria dos países latino-americanos, dança-se o bolero de forma simples e lenta, sem muitas variações. É aquele bolero dançado “dois pra lá, dois pra cá...”, como na letra da famosa música de João Bosco. Se perguntarmos a um cubano, a um costarriquenho ou a um argentino, por exemplo, a resposta será sempre a mesma, isto é, explicam que dançam o bolero dessa maneira porque ele serve para namorar, ele visa o romance. E era assim também, aqui no Brasil, até pouco tempo atrás.

            Nos bailes cariocas atuais, os dançarinos fazem grande número de figuras ao dançar o bolero, muitas delas adaptadas de outros ritmos e costumam dançar do mesmo jeito, ou seja, com figuras de bolero, não só os boleros propriamente ditos, mas também outros ritmos suaves e românticos. Generaliza-se: se é ritmo lento, dança-se como se fosse um bolero. É uma característica bem brasileira, esta de buscar fazer uma simbiose e simplificar. É uma faceta da criatividade dos nossos dançarinos e professores de dança de salão (ou seria uma faceta da sua falta de informações sobre como dançar os diferentes ritmos lentos?). De qualquer forma, parafraseando Martinho da Vila, é bonito e é gostoso dançar bolero do jeito que dançamos hoje, mesmo que não seja mais tão romântico...

 

O bolero e outras danças de sucesso durante o século XX

Jussara V. Gomes

A propósito do bolero e sua controvertida origem, deve-se registrar que não há um consenso entre os diversos autores. Alguns apontam Sebastián Zerezo, em 1780, como o inventor da dança, baseado nas seguidillas: bailados típicos das ciganas da região de Andaluzia, na Espanha, as quais usavam longos vestidos ornados com pequenas bolas penduradas – as boleras. Outros especialistas acreditam que ele vem do fandango, dança também da Andaluzia, mas de procedência árabe. Há pesquisadores que afirmam, por sua vez, que o bolero que conhecemos nos dias de hoje nada tem em comum com aquele nascido na Espanha e que ele surgiu em Cuba, a partir de uma dança mais antiga chamada danzon, nas últimas décadas do século XIX. Observe-se, entretanto, que o danzon, criado por volta de 1843, tem origem andaluza e africana, segundo o pesquisador Luis Ellmerich, o que nos leva, de novo, à hipótese da origem espanhola com fortes contribuições de ritmos africanos.

Seja qual for a explicação mais correta, o fato é que o bolero dançado nos bailes cariocas da atualidade guarda poucas semelhanças com sua forma original, uma vez que incorporou muitas figuras e movimentos emprestados de outras danças, além das modificações decorrentes da própria criatividade dos dançarinos.

Deve-se ressaltar que as danças de salão constituem uma forma de expressão altamente dinâmica, sofrendo rápidas e constantes transformações segundo o gosto e a capacidade inventiva de seus praticantes. Esta é uma das principais facetas da dança de caráter recreativo, uma vez que o fator espontaneidade do dançarino se faz fortemente presente. Isto a torna diferente da dança codificada com vistas às competições esportivas, onde o domínio da técnica é essencial e há pouco espaço para inovações. São duas opções e uma não elimina, necessariamente, a outra.

Para exemplificar o aspecto dinâmico acima, basta relacionar, rapidamente, as danças que estiveram na moda ao longo do século XX. Todavia, é preciso esclarecer, em primeiro lugar, que a divulgação e prática dessas danças ocorreu com maior ou menor intensidade e duração nos diferentes ambientes e nas diversas partes do país, além de terem recebido, com freqüência, adaptações locais.

No início do século XX, pelo menos durante as duas primeiras décadas, ainda predominavam aquelas danças originárias da Europa e que faziam sucesso nos salões do século anterior: valsa, mazurca, xote, polca, quadrilha, etc.. As danças brasileiras demoraram a penetrar nos salões de baile. O côco e o baião foram intensamente praticados, desde o século XIX, tendo o baião ganhado nova força, numa versão mais moderna, por volta de 1950. O samba urbano só apareceu em 1917 e o maxixe passou a ser praticado mais livremente durante os anos ’20, embora seu aparecimento fosse muito anterior (1884). O choro, como dança, projetou-se a partir de 1924.

Entre 1925 e 1950, aproximadamente, muitas danças de origem africana provenientes de outros países foram intensamente praticadas, entre elas o tango, vindo da Argentina e várias ligadas à primeira fase do jazz americano, como o ragtime, o cake walk, o shimmy, o fox, o charleston, o one step, o two step, só para citar as mais conhecidas. Após a Segunda Guerra Mundial, chegaram até nós o boogie-woogie, o swing, o rock-and-roll, o twist, decorrentes de uma segunda fase do jazz.

Outras danças, de diversas procedências, também fizeram sucesso entre os freqüentadores de bailes da primeira metade do século, como o pasodoble (espanhol), a habanera (espanhola, mas que nos chegou através de sua versão cubana), a ranchera (argentina), o bolero (que parece ter sido introduzido no Brasil na década de ’40), o calipso (surgido nas Antilhas), a rumba (de Cuba), o cha-cha-cha (versão mais moderna da rumba), o blues (variante do fox)...

            Já na década de ’60, apareceram o huly-guly, o surfy e o iê-iê-iê, vindos dos Estados Unidos e que, dançados pelos pares separados e em grupos, foram os precursores da dança de discoteca, que dominou o gosto popular desde aquela época até recentemente, quando se assiste ao ressurgimento da dança de pares enlaçados e a um novo período de popularidade de ritmos antigos, entre eles o bolero e o tango.

 

Etiqueta na dança de salão

Jussara V. Gomes

Este artigo visa trazer algumas informações que possam ser úteis aos profissionais e dançarinos em geral relativas à etiqueta na dança, assunto sempre discutido entre os assíduos freqüentadores de bailes.

Em meados do século passado , quando o Brasil era governado pelo Imperador D. Pedro II e o Rio de Janeiro, então capital do país, era freqüentemente visitado por professores estrangeiros, especialmente os franceses, que ensinavam as danças da moda aos aristocratas da corte, a questão da etiqueta na dança já era considerada de fundamental importância.

Em 1854 foi publicado o livro “Arte da Dança de Sociedade”, já então em sua segunda edição, revista e aumentada, dedicado a professores e curiosos, conforme consta logo abaixo do título da obra. Seu primeiro capítulo, intitulado Regras da Dança, além de tratar das posições básicas para dançar, preocupava-se também com as regras de etiqueta dos cavalheiros e damas.

Uma reedição ampliada deste livro, publicada na virada do século XIX para o XX, acrescentou um capítulo com o nome Regras de Civilidade Concernentes à Dança. Mesmo levando em conta as diferenças existentes entre os costumes daquela época e os atuais, pode-se observar que as preocupações e recomendações feitas então eram as mesmíssimas de agora, destacando-se aspectos como: a necessidade de se manter a ronda no salão e de os pares evitarem choques entre si; a atenção especial dedicada à elegância da postura e à leveza ao dançar; a observação de que o salão de baile não é um lugar apropriado para a exibição de passos e figuras com saltos e súbitas elevações de pernas, que seriam mais adequados a um espetáculo; conselhos a respeito do asseio, de palavras e gestos educados e até mesmo sobre os sorrisos que o par deve trocar entre si durante o ato de dançar, tendo em vista tratar-se de uma atividade prazerosa e eminentemente social. O capítulo acrescentava, ainda, lembretes específicos para os mestres de dança, no sentido de que eles deveriam se preocupar não só em ensinar passos, figuras e marcações das diversas danças aos seus alunos, mas também em levá-los a desenvolver sua sensibilidade para os variados ritmos e melodias, bem como para o comportamento social adequado aos salões de dança.

Como curiosidade adicional para nós, que vivemos um século depois, era ensinado, também, detalhadamente, como os cavalheiros deviam fazer suas mesuras diante das damas que desejassem convidar para dançar e - cá entre nós - tais mesuras, pelas descrições, eram tão complicadas como alguns dos movimentos das danças que andavam na moda por aquele tempo, entre elas a quadrilha, a contradança, a valsa, a polca, o xote e a mazurca.

A pesquisadora de história das danças de salão no Brasil, já falecida, Maria Amália Corrêa Giffoni, num trabalho publicado em 1971, comenta sobre as regras de comportamento que dominavam os bailes das primeiras décadas do século XX, baseada em várias entrevistas feitas com pessoas que os freqüentaram regularmente. Muitos dos pontos mencionados acima foram relatados pelos entrevistados, além de outros aspectos interessantes e curiosos: 1) o cavalheiro, ao convidar a dama para dançar, tirava um lenço do bolso e o usava durante a dança, entre sua mão esquerda e a direita da parceira ou quando a sua mão direita tocava as costas da dama; 2) no início do século, homens e mulheres costumavam posicionar-se em lados opostos do salão até que a música fosse começar e eles se aproximassem delas para tirá-las; 3) não se fumava nos salões de baile; 4) o carnet (nome usado em São Paulo para uma espécie de quadro de avisos, geralmente luminoso) indicava se eram os cavalheiros ou as damas que deveriam tirar seus parceiros para a próxima dança e não se podia recusar; 5) moças muito jovens não dançavam a valsa, que só era dançada por mulheres casadas e moças de mais idade, por ser uma dança considerada ousada, propiciando maior proximidade entre os parceiros. Entretanto, evitar batidas entre os casais, manter a ronda, caprichar na postura e abster-se de realizar passos perigosos para os pares vizinhos foram ítens repetidos pela maioria dos entrevistados e que continuam atuais.

Como vemos, certo tipo de comportamento não depende da época, mas do bom senso.

 

A que se deve a crescente popularidade da dança de salão nos últimos anos?

 Jussara V. Gomes

A crescente popularidade das danças de salão ou danças sociais no Brasil, do final dos anos ’80 para cá, leva-nos a perguntar que fatores têm contribuído para este crescimento.

O século XX descobriu novamente o corpo humano. Nunca, desde a antigüidade, ele foi tão amado e recebeu tanta atenção. Depois de séculos dominado por uma tradição religiosa que privilegiou o espírito e considerava o corpo como a fonte dos pecados, o homem voltou a se ver como um ser total. O intenso desenvolvimento dos esportes e da dança, em todas as suas modalidades, bem como o crescente interesse pela moda e pela manutenção da boa forma física demonstram esta mudança na maneira de nos relacionarmos com nosso próprio corpo. A evolução da fotografia, do cinema e da televisão contribuiu para aumentar ainda mais este verdadeiro culto pelo corpo, pelo aspecto visual, que vem sendo incrementado nas últimas décadas, formando um ambiente propício à atual onda de popularidade da dança de salão, para a qual outros fatores, mais específicos, também têm contribuído.

Até a década de 1960, a dança social era praticada, indiscriminadamente, por pessoas de todas as idades e nos mais diferentes locais e tipos de eventos. Era uma das formas de lazer mais populares, figurando entre os divertimentos preferidos por todas as camadas sociais, especialmente no Rio de Janeiro. Numa publicação de 1906, o famoso poeta Olavo Bilac comentava: “O Rio de Janeiro é “a cidade que dança”... A dança é, sempre foi e sempre será um divertimento universal. Foi ela a primeira arte que os homens cultivaram e amaram... Ela é ainda hoje amada e praticada em todos os pontos da terra... Mas, no Rio de Janeiro, a dança é mais do que um costume e um divertimento; é uma paixão, uma mania, uma febre. Nós somos um povo que vive dançando.”

Com o advento da disco music e das discotecas, os brasileiros aderiram em massa à nova maneira de dançar, importada dos Estados Unidos, Inglaterra e outros países. Uma forma solta e livre de se dançar, individualista, que fugia ao convencional e às regras, que permitia, inclusive, escolher entre dançar sozinho ou com um parceiro. Reflexo das profundas mudanças sociais da época e da liberação comportamental daí decorrente, as discotecas imperaram durante, pelo menos, duas décadas, deixando semi-esquecidas as danças sociais tradicionais, de pares enlaçados e seus ritmos preferidos. A dança a dois, durante esse período, foi praticada em poucos lugares, quase sempre localizados em bairros de periferia das grandes cidades e no interior do país. Seus adeptos, geralmente com mais de quarenta anos de idade, eram vistos como conservadores e antiquados pela grande maioria jovem da população, amante dos vigorosos movimentos dos ritmos próprios das discotecas.

Mas o século XX, principalmente nos países ocidentais industrializados, voltados para a produção em massa e para o capital, também tem levado enormes contingentes populacionais, nas grandes cidades, a viver em isolamento. A necessidade de evitar a solidão, a busca de companhia e de convívio humano, somada à importância adquirida pelos exercícios físicos para manter a saúde e a boa forma, têm sido os principais motivos que levam as pessoas a buscar a dança de salão. Ela proporciona exercício físico regular e não muito puxado, por ser uma espécie de ginástica aeróbica de baixo impacto, permitindo que pessoas de todas as idades e em diferentes estados de condicionamento físico a pratiquem sem grande dificuldade. Além disto, é um divertimento e uma atividade social, que promove o contato e a ansiada aproximação entre as pessoas.

Numa época de crise econômica e política, em que as tensões sociais se agravam, em tempos de desemprego, violência, conflitos ideológicos, desencanto, poucas esperanças, raras alternativas e queda acentuada da qualidade de vida, marcadamente nas grandes concentrações urbanas, como é bom dançar e se movimentar, para descarregar tensões, exorcizar fantasmas, exprimir livremente sentimentos e emoções, encontrar novos amigos e, até - quem sabe? - um novo amor!...

E como atrativo adicional, mas não menos importante, a dança é um divertimento barato, em comparação com outros e, em muitos casos, como temos visto, tem se tornado, também, para um número cada vez maior de seus adeptos, numa lucrativa fonte de renda, numa forma prazerosa de ganhar a vida.

O sucesso internacional da lambada, nos anos oitenta, também contribuiu fortemente para a retomada da dança de salão como uma das atividades sociais prediletas, especialmente por parte dos mais jovens. Estes descobriram o prazer da dança a dois através da prática da lambada, daí partindo para a tomada de consciência e aproximação de outros ritmos da dança de pares enlaçados.

A instalação de academias de dança com a proposta de ensinar a grandes grupos de pessoas de uma só vez - alunos dançando com alunos, a partir de uma nova metodologia, adequada a esta finalidade - desde a iniciativa pioneira de Jaime Arôxa, que ousou fundar sua academia, por volta de 1986-87, em plena Zona Sul, reduto maior dos adeptos da discoteca no Rio de Janeiro, também veio contribuir para a rápida multiplicação dos amantes da dança de salão na cidade. Seu exemplo foi logo seguido por outros professores de dança.

Por outro lado, não resta dúvida de que a recente onda de saudosismo dos “anos dourados”, propiciada pela crise já mencionada e pelo fato de que as pessoas que, atualmente, detêm o poder e os meios de comunicação, estão na faixa etária acima dos quarenta anos, em sua maioria, tem sua dose de participação nesse processo.

O Rio de Janeiro tem sido o polo irradiador de novas formas de comportamento, logo divulgadas pelos meios de comunicação (notadamente pela televisão) e seguidas pelo resto do país. Com a dança de salão não foi diferente. A “garota de Ipanema” redescobriu como é bom dançar juntinho. Em conseqüência, a mídia começou a abrir, pouco a pouco, espaço para a dança de salão (novelas de TV, reportagens, agendas de locais para dançar, comerciais para TV, concursos de dança em programas de auditório, etc.) e aquela atividade social tradicionalmente praticada no interior e nos bairros de periferia voltou a ganhar os “espaços nobres” das cidades, como na primeira metade do século XX, num movimento cada vez mais abrangente, que promete ter voltado para ficar, de uma vez por todas.   

 

Dança de Salão na Terceira Idade

Jussara V. Gomes 

A dança social ou dança de salão é aquela praticada por casais enlaçados, em reuniões sociais, de forma espontânea e alegre, visando a confraternização. É uma tradicional expressão da cultura popular brasileira.

A prática da dança de salão proporciona inúmeros benefícios aos que a ela se dedicam: quando praticada com regularidade, é uma espécie de ginástica aeróbica de baixo impacto, excelente para manter a forma física de pessoas de todas as idades e condicionamentos físicos diferenciados; permite maior aproximação entre as pessoas, estimulando o contato social e as amizades; auxilia no desenvolvimento psicomotor, melhorando o processo respiratório, a postura, o equilíbrio, a agilidade de reflexos e a coordenação motora; contribui para o autoconhecimento e a desinibição; estimula a criatividade e a auto-expressão. Trata-se de um lazer saudável, que faz bem ao corpo e à mente.

É sabido que a manutenção da boa forma física e de uma vida social ativa são fundamentais para a saúde e a longevidade do idoso. Na terceira idade, a dança pode ser considerada uma verdadeira terapia. Ela proporciona movimento regular e sem grande esforço aliado ao convívio saudável com outras pessoas, em ambiente estimulante, repleto de música e alegria. Os bailes voltados para a terceira idade são organizados, geralmente, em horários propícios (por exemplo, à tarde), de forma que as pessoas possam manter sua independência, indo e vindo da atividade sem a necessidade de acompanhantes e não tendo prejudicado seu necessário horário de sono. A comemoração de aniversários, bem como a realização de bingos, de concursos e de sorteios de brindes durante os bailes proporcionam um atrativo extra, estimulando mais ainda o congraçamento e o estabelecimento de novas relações de amizade.

Embora a maioria das pessoas com mais de sessenta anos já tenham dançado e comparecido a bailes no passado, é freqüente que tenham abandonado esta atividade há muito tempo, de forma que, geralmente, buscam fazer aulas de dança para se reciclarem, aprender os passos e figuras dos diversos ritmos que estão na moda e conhecer pessoas com quem dançar e comparecer aos bailes. Em suma, fazer aulas de dança de salão, para o idoso, não só representa um primeiro passo para conhecer novas pessoas, ter companhia, buscar divertimento, como também para se sentir mais seguro ao participar de bailes e outros eventos sociais. 

 

Dança esportiva

Jussara V. Gomes

Nos vários países europeus, nos Estados Unidos, na Austrália, no Japão e em outras partes do mundo, pelo menos desde a década de 1930, a dança de salão transformou-se numa atividade profissinal. Não é mais apenas um divertimento social. Lá, as pessoas começam a aprender dança quando ainda são crianças. Muitas escolas de 1º e 2º graus oferecem aulas de dança a seus alunos, às vezes como parte do currículo de educação física, às vezes como atividade complementar, extra-classe. Todas as danças estão codificadas em manuais bem detalhados, seguidos à risca pelos professores. Cada ritmo tem sua dança, com passos, figuras e marcações que lhe são próprios. Os alunos que resolvem ser dançarinos profissionais vão para escolas de dança especializadas, para passarem por um processo de formação adequado.

Há categorias de dançarinos, divididas de acordo com a faixa etária e de acordo com o tipo de ritmos em que eles se especializam. O dançarino pode se especializar em danças-padrão (ou standard), que são: a rápida valsa vienense, a valsa lenta ou valsa inglêsa, o slow fox, o quickstep ou foxtrote e o tango; ou pode se especializar em danças latinas: a rumba, o jive, o paso-doble, o cha-cha-cha e o samba. Observe-se que, embora de origem afro-latina, o tango está enquadrado entre as danças padronizadas, nos países dos quais estamos falando e, lá, ele é dançado de maneira diferente da que os argentinos dançam.

Os dançarinos profissinais participam freqüentemente de competições, segundo sua categoria de idade e de acordo com o tipo de ritmos em que se especializaram. Essas competições, nacionais e internacionais, organizadas por associações e ligas de associações, que ditam as regras, oferecem medalhas de ouro, prata e bronze para cada categoria, além de vultosas somas em dinheiro. Começando a competir desde crianças, os profissinais da dança, nesses países, vão evoluindo de categoria conforme sua faixa de idade e, mais tarde, quando deixam de competir, tornam-se professores e/ou juízes de competições, até se aposentarem.

Considerada, portanto, como um esporte competitivo, a dança de salão está sendo incluída como uma das modalidades dos Jogos Olímpicos. A Austrália, Inglaterra, França e Itália estão entre os países onde a dança de salão competitiva é levada mais a sério e possuem um enorme número de adeptos, além de grandes campeões mundiais.

Mas, no Brasil, a dança esportiva é praticada por poucas pessoas. Aqui, a dança é, principalmente, uma forma de lazer, uma expressão alegre e espontânea do povo. Não está codificada e hierarquizada da mesma forma que nos outros países. Só há poucos anos começou a aumentar o número de profissionais da dança, os quais não seguem as regras internacionais. Nós temos ritmos e formas de dançar próprios, que despertam o interesse e a admiração dos estrangeiros, como a lambada, o nosso samba (que é diferente daquele dançado por eles), etc..

Se o Brasil quiser participar das Olimpíadas, um dia, na categoria de dança esportiva, será necessário que se formem dançarinos profissionais que sigam os regulamentos internacionais e que se criem associações locais e estaduais, assim como uma federação nacional de dança esportiva, a qual se filiará aos organismos internacionais já existentes desta modalidade de dança, da mesma forma como acontece com o futebol profissional e com outros esportes. 

 

O “Soltinho”

Jussara V. Gomes

Assim como o vestuário e a alimentação, a dança é uma das maneiras mais fortes de expressão cultural de um povo. Desde o fim da I Guerra Mundial, os Estados Unidos tomaram a liderança internacional em muitos aspectos e também no que diz respeito à dança social. A marcante influência africana na música popular norte-americana e em suas danças é bem conhecida. O swing, o boogie-woogie, o jive, o rock’n roll são bons exemplos.

No Brasil, para esses ritmos de andamento rápido, vivos, vibrantes e alegres, há uma forma de dançar em que os parceiros ficam mais distantes um do outro, na maior parte do tempo segurando-se apenas pelas mãos. Por isto, nós, cariocas, que gostamos de simplificar e generalizar, chamamos a esta forma de dançar de “soltinho”. O “soltinho” dançado por nós, na verdade, é constituído de uma mistura de figuras e passos característicos das danças que acabamos de mencionar – um pouco de rock, um pouco de swing, um pouco de foxtrote, etc.. Ele é uma combinação de movimentos de várias dessas danças americanas de ritmo agitado, movimentos esses já adaptados e modificados pela criatividade dos dançarinos. 

 

Lambada/Zouk

Jussara V. Gomes

A lambada brasileira recebeu influências dos ritmos afro-caribenhos. Ela é resultado da fusão do carimbó paraense (originário, por sua vez, de ritmos africanos e indígenas) com ritmos importados da América Central, como a cumbia, o mambo e o merengue. Dançada nos forrós do norte e nordeste, entre outros ritmos, desde os anos ’50 mais ou menos (alguns pesquisadores dizem que desde uma ou duas décadas antes disto), com o passar do tempo ela foi-se modificando, até chegar à forma de dançar que conhecemos e que faz sucesso, até hoje, no exterior.

Em meados da década de 1980, a lambada começou a ser muito apreciada pelos turistas que íam a Porto Seguro, na Bahia. Foi a época em que aquela cidade passou a ser um dos pontos turísticos mais importantes e visitados do Brasil, tanto pelos próprios brasileiros como por estrangeiros. Como conseqüência, a lambada não demorou a ser levada para os centros urbanos mais importantes (primeiro para São Paulo, logo em seguida, para o Rio e outras capitais), que passaram a “importar” lambadeiros de Porto Seguro para fazerem espetáculos e ensinar a dança nas lambaterias, que começaram a se multiplicar.

A partir de 1989 e do sucesso internacional do grupo Kaoma (criado por empresários franceses, que lançaram e divulgaram a lambada no exterior), ela tomou de assalto os palcos e locais de dança do mundo inteiro. Concursos de lambada tornaram-se freqüentes e muito populares.

Por volta de 1993/94, no entanto, a contagiante e sensual dança começou a decair em popularidade. O Kaoma havia sido desfeito, as gravações de novas músicas de lambada para consumo dos dançarinos começaram a rarear. Como alternativa, os lambadeiros passaram a experimentar dançar ao som de outros ritmos de marcação assemelhada à da lambada. Foi a época em que as gravações do grupo cigano espanhol Gipsy Kings fez sucesso entre os dançarinos de lambada.

A busca por músicas para continuar dançando lambada passou por vários ritmos caribenhos, especialmente aqueles provenientes de ilhas que foram colonizadas por franceses, daí a denominação de “lambada francesa” dada pelos lambadeiros ao se referirem a esses ritmos, de início. Entre eles, destacou-se o zouk, de origem afro-caribenha e vindo da Martinica (ilha também colonizada pelos franceses). É muito parecido com a lambada, embora mais lânguido e sensual, de andamento menos rápido e acabou se firmando entre os dançarinos como a melhor alternativa. Os movimentos da lambada foram-se adaptando ao zouk.

É bom que se registre, entretanto, que o zouk dançado em sua terra natal é diferente e não se assemelha à forma de dançá-lo dos brasileiros, com movimentos provenientes da lambada.

Atualmente, embora o modismo tenha passado, há bailes específicos para os muitos adeptos da dança. Toda uma nova geração de dançarinos já conheceu os movimentos da antiga lambada ao som do zouk

 

Salsa

Jussara V. Gomes

Não só os Estados Unidos receberam influência africana em suas danças, mas também todos os países americanos que tiveram escravos negros no período colonial. Assim, na América Central, isto é, na região do Caribe, como é mais conhecida, surgiram muitas das danças latinas que foram sucesso ao longo do século XX e ainda são, em alguns países, entre elas o mambo, a rumba, o cha-cha-cha, a cumbia e o merengue. Todas essas danças são resultantes de ritmos trazidos pelos colonizadores europeus transformados pela convivência com a marcante influência dos ritmos africanos.

Curiosamente, a salsa não nasceu na América Central, como muitos pensam. Ela se compõe de uma combinação de elementos de vários ritmos caribenhos tradicionais e nasceu entre os imigrantes de países centro-americanos que viviam nos Estados Unidos, só depois sendo difundida para os países de origem daqueles imigrantes, assim como para o resto da América e para a Europa. Apesar disto, é comum encontrar cubanos e portorriquenhos disputando a paternidade da salsa. Para os primeiros, ela é de origem cubana e para os segundos, como não poderia deixar de ser, ela é originária de Porto Rico...

Não é de se surpreender quando encontramos semelhanças entre o “soltinho”, o merengue, a salsa e a lambada. Todos tiveram influências de ritmos vindos da África. Mas, ainda assim, há diferenças claras entre essas danças. Em cada uma delas os dançarinos marcam o ritmo de maneira distinta, há passos e figuras específicos de cada uma e a movimentação dos quadris também difere. 

 

Samba

Jussara V. Gomes

O samba brasileiro tem raízes africanas. É dançado juntinho nos salões das gafieiras, com aquele gingado bem carioca, pelo menos desde a terceira década do século XX e aos poucos foi sendo aceito nos salões de baile mais aristocráticos. É conveniente esclarecer, aqui, que a gafieira não é uma dança, como alguns pensam, mas um lugar onde se dança. É um baile popular.

Originário do batuque africano, o samba tem muitas modalidades e coreografias diferentes, espalhadas de norte a sul do país. Podem ser citados, para exemplificar, o jongo, o côco, o baião, o samba de roda, o samba de umbigada, o samba-enredo, o samba-canção, o partido alto, o samba de breque, o samba no pé (que acompanha a bateria das Escolas de Samba), o samba-choro ou chorinho, o samba de pagode e até a bossa nova. Nos bailes cariocas, é costume dançar, além do samba de gafieira propriamente dito, o chorinho, a bossa nova, o pagode e o samba-canção.

E falando de samba de gafieira, não é possível deixar de lembrar o maxixe, seu precursor e também muito brasileiro, que foi o primeiro ritmo latino a ser adotado na Europa e a fazer enorme sucesso, ainda no final do século passado. Embora, hoje em dia, poucos ainda saibam dançá-lo, foi o maxixe que abriu caminho para a atual preferência internacional pelos ritmos e danças latino-americanos.

 

Um pouco mais sobre o Samba

Jussara V. Gomes

O samba é uma dança de origem africana. Nasceu do batuque dos tambores nas senzalas e desde o século XVII já existia como dança de roda, dançada ao ar livre pelos escravos, em grupos de indivíduos de ambos os sexos. Este é o samba rural, que recebeu denominações diferentes nas várias regiões do Brasil, mostrando também características diferentes de região para região.

Porém, mais conhecido é o samba urbano carioca, que hoje representa a música e a dança do Brasil internacionalmente. Tem duas modalidades básicas: o samba do morro, popularmente chamado de samba no pé, que é aquele praticado pelas escolas de samba e o moderno samba de salão ou samba de gafieira, dançado em pares e oriundo do maxixe.

O maxixe surgiu na década de 1870 e foi a primeira dança urbana brasileira de salão, dançada a dois, bem agarradinhos. Do ponto de vista musical, herdou elementos da polca européia, do tango e do lundu, de origem africana. A princípio, era dançado em bailes populares freqüentados pelas camadas mais humildes da população. Estruturou-se como dança ao longo de muitos anos, a medida que os freqüentadores dos bailes estilizavam e incorporavam ao estilo de dança de salão os passos, volteios, requebros, negaças e umbigadas dos batuques e danças de roda. Ganhou os palcos dos teatros e ficou famoso fora do Brasil, por um período de pelo menos 40 anos, embora sempre sendo considerado como uma dança indecente, não apropriada aos salões mais aristocráticos.

Já naquela época – na passagem do século XIX para o XX - existiam grupos de músicos populares que tocavam violão, flauta, cavaquinho, pandeiro e reco-reco. Eram conhecidos como os chorões, por seu estilo de tocar na base de um solo acompanhado de contracanto e modulações e eram considerados como os autênticos herdeiros da música produzida nas senzalas, que se deslocavam agora para o ambiente urbano. O moderno samba de gafieira foi fortemente influenciado pelo maxixe e pelo choro, porém, como dança, só veio a se estruturar por volta da década de 1930.

A propósito, as gafieiras nada mais são do que locais para dançar freqüentados, geralmente, por pessoas de origem humilde e foi nestes bailes populares, desde a primeira metade do século XX, que o samba encontrou um ambiente propício para se desenvolver como a dança mais popular e característica do Brasil.

No fim da década de 1950, influenciada pelo jazz, surgiu a Bossa Nova, com sua batida característica e suas letras românticas. Caiu no gosto das camadas médias e mais intelectualizadas da população e fez bastante sucesso no exterior.

A popularidade do samba, cada vez maior, não só entre os próprios brasileiros como também entre os turistas que visitam o Brasil e se apaixonam por nossa música e dança, nos traz ao samba atual: por um lado, o samba-enredo característico das escolas de samba, com passistas fazendo evoluções nos desfiles carnavalescos; por outro lado, o samba dançado a dois nos salões, com estilos diversificados e uma grande variedade de passos e figuras. 

 

Tango

Jussara V. Gomes

O tango é uma forte expressão cultural argentina. Surgido na segunda metade do século XIX, originou-se da habanera cubana que, por sua vez, foi herdeira da contradança espanhola. A habanera cubana instalou-se no ambiente portuário do estuário do rio da Prata, trazida pelos marinheiros que praticavam o comércio com a região das Antilhas. Com grande influência de danças dos negros escravos de Cuba, a habanera, na zona portuária platina, foi-se transformando, aos poucos, na milonga e, mais tarde, no tango, chegando à Europa por volta de 1910, onde fez grande sucesso e daí sendo difundido para o resto do mundo.

Foi muito popular durante a primeira metade do século XX, especialmente depois que o conhecidíssimo ator norte-americano Rodolfo Valentino apareceu dançando um tango num de seus mais famosos filmes.

Depois de algumas décadas caído no esquecimento, o tango está passando por uma fase de redescoberta, tanto na própria Argentina como nos mais diversos países do mundo. É uma dança passional, de forte apelo dramático e plasticamente belíssima, de forma que tem muitos adeptos. No Rio de Janeiro, o número de apaixonados pelo tango vem crescendo rapidamente, mas ele ainda não está sendo tocado regularmente – como era, antigamente – nos bailes da cidade. Os amantes do tango promovem seus bailes especiais, para poderem praticar. 

 

Mestra Antonietta

Jussara V. Gomes

  A amazonense Maria Antonietta Guaicurus, que aniversariou em maio, é considerada pelos dançarinos cariocas como a grande dama da Dança de Salão, a mestra querida com a qual a maioria, em algum momento, fez aulas. Em entrevista de quase duas horas que me foi concedida em outubro de 1989, ela contou com detalhes sua vida pessoal e sua trajetória na dança.

Lá no norte, segundo ela, haviam muitos saraus dançantes aos quais comparecia com a família e também estudou num colégio de freiras, onde aprendeu danças folclóricas. Veio de navio para o Rio de Janeiro, onde chegou aos 14 anos e foi morar em casa de parentes.

Mais tarde, já com 17 anos, viu um anúncio de jornal convocando dançarinas para ensinar na então tradicional e famosa Academia Moraes, localizada no Centro do Rio, na região do Largo da Carioca. “Sempre gostei de aparecer muito e achei que a dança era uma boa forma de me expressar”, diz Antonietta. Assim, candidatou-se ao emprego, conseguiu a vaga entre mais de trinta candidatas e trabalhou na Academia Moraes durante muitos anos, tendo saído durante um período em que esteve casada e voltando mais tarde, depois da separação.

De acordo com Antonietta, ela começou a aparecer e se destacar junto à opinião pública na década de 1970, nos bailes da Gafieira Elite.

Hoje, é uma personalidade conhecida e respeitada, que já recebeu muitos prêmios e homenagens, devido a sua grande experiência como professora e coreógrafa, com uma enorme bagagem de trabalhos expressivos em eventos importantes, palcos, televisão e cinema. É, também, um exemplo como ser humano, pois enfrentou muito preconceito, dificuldades financeiras e problemas sérios de saúde ao longo da vida, nunca esmorecendo e mantendo-se ativa, sempre alegre e bem humorada até a atualidade.

Ela foi homenageada pelo Conexão no baile do nosso segundo aniversário. Veja o vídeo.

 

Quadrilha

Jussara V. Gomes

Estamos no período anual das festas juninas, quando são comemorados os dias dos santos Antonio (13 de junho), João (24) e Pedro (29). Todo ano o Conexão também faz a sua festa e um dos pontos altos é a quadrilha improvisada, sempre animadíssima, que envolve todos os participantes do baile. Que tal conhecermos um pouco mais sobre esta dança tradicional da qual vamos participar no próximo dia 6 de julho?

A quadrilha é uma dança de origem francesa. Deriva do cotillon, uma dança mais antiga, alegre e movimentada, que costumava ser executada por quatro pessoas (2 pares). Mais tarde, passaram a dançar quatro pares, formando um quadrado – daí a origem do nome quadrilha. Só muitos anos depois passou a ser dançada por um número ilimitado de casais.

A quadrilha francesa era dividida em cinco partes. Chegou a outros países, como a Inglaterra, Estados Unidos, Brasil, etc., com variações locais. A quadrilha americana, por exemplo, tinha quatro partes. Porém, em todas as suas variações, ela foi muito popular durante o século XIX e no início do século XX, sendo considerada uma dança refinada, apreciadíssima nos salões aristocráticos. O imperador Pedro II, por exemplo, fazia questão de dançar todas as quadrilhas que eram tocadas nos bailes da corte.

Com o surgimento de novos ritmos dançantes e as rápidas mudanças de hábitos ao longo do agitado século XX, a quadrilha foi substituída por outras danças nos salões elegantes, passando a ser vista, aos poucos, como uma dança fora de moda. Continuou a ser dançada, porém, durante muitos anos ainda, nas festas populares das zonas rurais, daí passando a ser vista como uma dança “caipira”. Hoje, muito modificada com relação ao que era originalmente, tornou-se obrigatória nas festas juninas e muitos de seus apreciadores, em determinadas regiões do país, organizam quadrilhas especiais para apresentações públicas e para participarem de concursos.

Venha se divertir e dançar quadrilha na festa do dia 6. Não esqueça de vestir-se a caráter, para tornar mais bonita e alegre a festa. Contamos com você. 

 

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